Domingo, 8 de Junho de 2008

O Intelectual Urbano

Contra todos os "intelectuais urbanos".
Quem são eles, afinal? Nem são Intelectuais (com I maiúsculo), pois esses dedicam-se de corpo e alma às coisas do espírito, e o cérebro é efectivamente o seu instrumento de trabalho; não são puramente Urbanos, pois, como sempre foi apanágio dos mais privilegiados, procuram fugir da verdadeira urbe, onde impera a populaça plebeia e a verdadeira (e cada vez mais escassa) classe média.
Ele assume-se verdadeiramente como o Ser Pensante. Os outros não pensam; quando muito, ruminam ideias!
Muito resumidamente... é aquilo que eu denomino de "Intelectualóide". Aquele que convenientemente pensa à Esquerda, mas desafogadamente vive à Direita. Alguns atribuem-lhes o epíteto de “esquerda-caviar” (atribuido aos militantes e simpatizantes do Bloco de Esquerda); outros chama-lhes “queques rouges”. São sempre muito democratas, excepto quando a maioria dos «não-pensantes» têm ideias contrárias às suas (o que acontece frequentemente, vá-se lá saber porquê).
Qualquer que seja o apelido, é defensor dos fracos e oprimidos, mas nem pensem em construir um bairro social na vizinhança da sua casa! O seu lado “esquerdalho” fá-lo ser anti-americano (sendo, porém, bastante influenciado pela “cultura americana” de cariz liberal e híbrido …) e saudosista do seu passado “revolucionário” de juventude (ou, na ausência deste, de pais e/ou avós), enquanto o seu lado direitista o arrasta para o mundo empresarial… e para as mesas dos melhores restaurantes, para os estofos dos carros da moda e para o último grito dos destinos turísticos de elite.
É aquele que está sempre actualizado quanto aos escaparates da FNAC; aliás, adora folhear revistas ou livros de elevado interesse, enquanto almoça lá. Dá estilo e recomenda-se. Idolatra a literatura e a música sul-americanas, supostamente reflexo da sua veia esquerdista… Tem predilecção por Jazz, o que lhe confere sempre uma certa aura de cosmopolitismo e sofisticação. Eventualmente, também pode gostar da vaga de novos fadistas de acentuada craveira cultural, que mais não são do que sucedâneos de fadistas mais genuínos. As gerações mais novas de “bem-pensantes” também podem ir na onda do fenómeno hip-hop, que é sempre uma coisa bastante representativa da identidade cultural e étnica portuguesa e europeia… (curioso é verificar que aquele que tanto critica os famigerados “poetas de Karaoke” não se chame “Samuel, o Puto”…)
Serralves? Adoram Serralves e a “arte” contemporânea e dizem maravilhas da Casa da Música. Aliás, põem os Sizas, Soutos Mouras, Fernandos Távoras e outros que tais nos píncaros. Nada acima da Escola de Arquitectura do Porto! Nem que para isso se tenham de destruir e descaracterizar cidades inteiras, para Suas Eminências as “reabilitarem”.
Quanto às coisas da gastronomia, e citando o Zé de Portugal, «enjoa feijoada e acha o cozido à portuguesa pura vianda suína. Perde-se, porém com a cozinha étnica. É magnífico em Lisboa petiscar em indonésio, lambuzar-se em vietnamita, intoxicar-se com sushi e defecar em japonês». Adoram, em suma, a denominada “cozinha de fusão”, ou seja, também aqui a miscegenação cultural. E nem pensar em molhar o pão nos molhos ou comer sardinhas à mão! Em casa, os restos são para os pobrezinhos, coitadinhos…
São os Paladinos do Multiculturalismo e da Tolerância, mas a eles metem-lhe espécie tudo quanto possa ser culturalmente característico do seu Povo ou País. Aproveitam todas as oportunidades de comparar a sua miseravelzinha cidade com as grandes e multifacetadas metrópoles europeias e americanas (sim, da mesma América que dizem detestar…) ou manifestar repulsa pela gentalha que vive no interior do seu país.
Por isso são muito viajados, de preferência em países exóticos, porque este rectângulo é muito pobrezinho… Cuba é o destino predilecto: fica sempre bem vangloriar-se de idas a países não conspurcados pelo capitalismo (quando eles são, afinal de contas, produtos desse mesmo sistema). Quando tiram férias «cá dentro», obviamente preferem locais recatados, longe da populaça transpirada e malcheirosa.
Por estas e por outras razões tentam não trabalhar por contra de outrem, que isto de meter férias várias vezes ao ano era uma chatice, se tivessem um patrão. Acreditam solenemente na iniciativa privada e no trabalho por conta própria. Pudera! Muitos deles não querem é efectivamente trabalhar como as pessoas normais, preferindo o papel de gestores ou empresários modernos (quando o assumem, pois ser “patrão” faz ainda eriçar os cabelos da sua personalidade esquerdista). Trabalhar, que o façam os outros, os chamados “colaboradores” (ou seja, aqueles que realmente sabem e querem trabalhar).
Também é aquele que, no conforto e luxo da sua metrópole, gosta de impor aos saloios e provincianos o seu estilo de vida. É fervoroso defensor de reformas que tiram qualidade de vida e futuro às áreas do Interior. Não deixa de defender o encerramento de maternidades, enquanto espera pacientemente que o seu filho nasça numa Maternidade privada ou numa Ordem, com um hospital central não muito longe, porque os azares acontecem…
Nas áreas metropolitanas, cedo se dirigiram para as zonas privilegiadas. Mas não as tradicionais, povoadas de casarões e vivendas de gosto clássico e refinado, típico de “dinheiro antigo”. Não! Isso é coisa de “privilegiados” e fascistas! Esta nova burguesia quer primar pelo bom e moderno gosto urbanístico – Matosinhos Sul e Gaia litoral é que estão a dar! Vivem em caixotes e em penitenciárias hiper-protegidas, mas são caixotes e penitenciárias concebidas pelos arquitectos de renome e com os característicos traços minimalistas e refinados da pós-modernidade!
De igual modo são acérrimos e inquebrantáveis defensores do Património Natural e Cultural… desde que impostos aos outors! Curiosamente, não moram em Parques Naturais nem no interior do país, nem mesmo nos escuros, húmidos, e degradados centros históricos! (porque será?) Pelo contrário: qual senhor medieval (que, de quando em vez, percorria os seus domínios), também eles desejam que os tais saloios e provincianos se sujeitem às suas idas regulares para respirar o ar saudável da serra ou a maresia do mar. E se tiverem de deitar abaixo qualquer edifício ou vestígio histórico para construir a sua moradia, não irão por certo perder o sono…