Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Ainda acerca do Colégio Militar...

Devo alertar, desde já, que os meus comentários não são produto de qualquer recalcamento ou sentimento negativo em relação ao Colégio Militar, mas é tão só um conjunto de reflexões acerca da instituição, de quem por lá passou alguns anos, e lá voltava de novo para aproveitar a oportunidade desperdiçada.

Nestes últimos tempos, tenho reflectido muito sobre o CM, não só em termos da minha experiência pessoal, como também numa espécie de análise custo-benefício, face ao Portugal do século XXI e às mutações sociais que desde há algum tempo ocorrem no seu seio. E para isso tem contribuído uma maior visibilidade da instituição, do seu dia-a-dia, das suas tradições, dos acontecimentos marcantes, um pouco por todo o lado, desde a televisão (por exemplo “Um nó na Alma”, na SIC) até à Internet (com sites, blogues, Youtube, Hi5, etc.).

Não considero o CM uma escola de “betos”, embora não exclua a hipótese de os haver por lá! Por outro lado, tirem da ideia aqueles que pensarem que é um “contentor” para onde se despejam miúdos mal comportados, em jeito de “casa de correcção”, colégio de freiras ou seminário…

Mas, a meu ver, o CM é, ainda e sempre, uma escola de elites e privilegiados. Logo a começar pelo valor das propinas (já não falando de todo o enxoval, que, ainda por cima, terá de ser renovado a meio do percurso, por razões claramente biológicas). Ainda assim, para quem é da Área Metropolitana de Lisboa, é um valor que por certo compensará, se o compararmos ao dos colégios externos privados, que ainda por cima não oferecem a mesma qualidade e diversidade de formação e ensino. Este panorama externo torna-se pior, se os pais decidirem complementar a formação com actividades físicas, em clubes desportivos, ou mesmo culturais (ex. música), que não são assim tão baratas.

Escola de elites, dada a condição sócio-económica da generalidade dos pais e encarregados de educação. Sejam militares, sejam civis, são maioritariamente pertencentes a quadros superiores, de avolumados salários, com forte estabilidade profissional e não menor prestígio social. E, como poderão confirmar, é um fenómeno cíclico, de pais para filhos: o CM é, sem dúvida, uma escola de perpetuação de elites!

E esta perpetuação de elites também tem laivos de “politicamente correcto”. Isto porque, como escola de valores, devia ser sua principal função (como acontecia originariamente) contribuir para uma sólida e íntegra formação dos cidadãos portugueses mais carenciados. E sublinho a palavra “portugueses”, para não se confundir com a autêntica invasão de PALOP’s e demais afro-descendentes, não só da capital como, neste caso, do Colégio Militar. Nunca vi, pelo contrário, grande vontade dos responsáveis pelo CM em ter a iniciativa atribuir bolsas de estudo para ajudar os verdadeiros portugueses necessitados, existentes um pouco por todo o País.

Também é, como já disse num comentário anterior, uma escola de elites geográficas. Muito resumidamente, e apesar de haver alunos de fora de Lisboa (em clara minoria), tudo o resto é “paisagem” face à maioria dos alunos da região capital.

Historicamente, o CM era uma antecâmara para as instituições de ensino militar (Academias do Exército, da Força Aérea, Naval) ou policial (Escola Superior de Polícia). Contudo, a realidade foi-se alterando, e não só os filhos de militares estão já em minoria, como, após concluírem os estudos, poucos são aqueles que prosseguem as tradicionais vias castrenses. Apesar desta “desmilitarização” sociológica, o CM ainda é visto como uma escola de formação de “oficiais e cavalheiros”. Pequenos pormenores fazem pensar sobre isso: alguma vez os alunos são postos a ajudar na preparação das refeições ou a lavar pratos após as mesmas? Lavam as suas casas de banho ou camaratas? Limpam a parada ou o Corpo de Alunos? Creio que não, pois isso parece ser coisa de “empregado” ou de recruta… E olhem que isso talvez fosse bom para criar em muitos elementos algum espírito de humildade, que parece, tantas vezes, não existir: quem não se lembra daqueles que iam para a Escolta (tantas vezes emproados e arrogantes) por terem um papá major ou coronel de Cavalaria? E porque tínhamos de apenas fazer a continência apenas a professores e oficiais, e não a sargentos?

Então coloca-se a questão: é de “oficiais e cavalheiros” de que precisa a sociedade portuguesa do século XXI? Ou precisa, antes, de cidadãos honestos, honrados, com verdadeiro amor à sua nação (e não aos sonhos “neocolonialistas” ou multiculturalistas, à maneira do “Portugal de Minho a Timor”, com total desrespeito pelas verdadeiras tradições europeias deste país…), com sentido de justiça, de humildade perante os demais cidadãos?

Sabemos que quem entra “beto”, rapidamente muda os seus comportamentos – a farda uniformiza, a disciplina militar tira as manias, o lema “Um Por Todos, Todos Por Um” é levado a sério, etc. Mas nada nos garante que, ao sair e voltar para o seu meio social, económico e cultural, não se torne de novo “beto”, agora reforçado pela sua suposta superioridade moral e cívica. Mas isso não será culpa do CM…