Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Por uma "Escola Militar de Ensino" no Norte

Agora que se vão comemorar os 205 anos do Colégio Militar, exponho aqui algumas razões para que se crie uma Escola Militar de Ensino (do género Colégio Militar ou IMPE), que sirva o Norte do País.

1. Muitos poderão afirmar que esta minha reflexão, esta minha exposição, não passa de mais uma manifestação de "regionalismo bacoco". Não o é! Os números não enganam: os três estabelecimentos militares de ensino (CM e IMPE para rapazes, Instituto de Odivelas para raparigas) estão localizados em Lisboa!

2. As estatísticas também não mentem: quantos são, percentualmente, os candidatos e os alunos que entram no CM ou IMPE, que não sejam da Grande Área Metropolitana de Lisboa/GAML (Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Sesimbra, Setúbal, Seixal, Sintra e Vila Franca de Xira)? Ou, melhor dizendo, quantos são oriundos de uma região que, pela sua distância a Lisboa, não lhes permita ir semanalmente a casa, aos fins-de-semana (logo, que não lhes permita o desejável e recomendável acompanhamento familiar em termos emocionais, psicológicos e escolares)?

3. Dos alunos que entram nesta situação, quantos são, percentualmente, aqueles que completam a totalidade do percurso escolar? E com que média e resultados?

4. Quantos são os que, de fora da GAML, efectivamente estão geograficamente deslocados das suas famílias? Isto porque muitos dos que nascem de fora da GAML, acabam por ter algum tipo de apoio em Lisboa ou arredores, como sejam familiares (tios, avós, etc.) ou mesmo os pais (sobretudo os militares em tempo de serviço).

5. Uma vez lá dentro (ressalvando as respectivas excepções que confirmam qualquer regra), que tipo de acompanhamento emocional, psicológico e escolar, têm os alunos de fora da GAML, que raríssimas vezes podem ir a casa aos fins-de-semana, e cujos pais estão demasiado longe para ir, com mais frequência, falar com os directores de turma e outros responsáveis? Todos sabemos o quanto devem ser apoiados os jovens nestas idades, a falta que faz a proximidade dos pais nestas condições e os efeitos que isso poderá ter na restante adolescência e mesmo vida adulta.

6. Nas condições de acesso a essas instituições é claramente dito que qualquer aluno que termine o 1.º Ciclo pode candidatar-se à frequência daquela instituição (com as necessárias provas de ingresso), independentemente das profissões dos encarregados de educação (longe vão os tempos em que apenas filhos de oficiais podiam entrar no CM; contudo, permanece ainda, infelizmente, uma certa "endogamia social" neste estabelecimento). Na teoria, qualquer um pode candidatar-se, seja de onde for, de Norte a Sul do continente e ilhas.

7.Todavia, na prática, não é isso que acontece, e todos o sabemos. Quantos são aqueles (pais e alunos) que, em regiões fora da GAML, conhecem instituições como o CM ou o IMPE, e desejam lá colocar os seus educandos? A quantas escolas primárias fora da GAML foram responsáveis dessas instituições divulgar os programas e actividades que lá se praticam, os objectivos e valores que lá se inculcam? Tirando, obviamente, os militares de carreira e os seus filhos, creio que muito poucos, independentemente dos programas que lá vão passando na televisão...

8. Provavelmente os mais acérrimos defensores deste centralismo estarão a pensar que, nas restantes áreas do país, não se gosta de militarismos, ou que os miúdos são demasiado dados à preguiça ou indisciplina para concorrerem a estas escolas, ou ainda que não têm a fibra e o carácter necessários para ambicionarem tal destino. Por este andar é que nunca saberemos!

9. Não se compreende, então, porque não podem os jovens das restantes regiões do país aceder a um ensino e a uma formação de tal qualidade. Dir-me-ão que é por Lisboa ser a capital e por haver aí grande número de habitantes que poderão lá colocar os seus filhos. Ora, ser capital não é condição "sine qua non" para haver ensino e formação de qualidade em Portugal e, curiosamente, é no Minho que existe a maior taxa de natalidade e de população jovem do País, o que poderia ditar uma maior afluência de futuros estudantes numa instituição desse cariz.
Em suma: pode concluir-se que o Estado Português e as Forças Armadas pretendem manter intencionalmente estas instituições ao serviço de apenas uma região do País! E que, também neste domínio, teima em haver discriminação geográfica, uma vez que se nega aos jovens das restantes regiões o direito de frequentar este tipo de instituições, em igualdade de circunstâncias com lisboetas e "valetejenses".

10. Não só por motivos demográficos assaz conhecidos (forte quebra da natalidade), como devido a uma suposta e generalizada "corrosão" e alteração dos valores da sociedade portuguesa, têm vindo a diminuir, há já vários anos, os candidatos e os alunos das instituições militares de ensino existentes. Sinais dos tempos? Não só, mas também pela distância física em relação às demais regiões do País.
Quantos não seriam aqueles que gostariam de ir para uma escola dessas, se ela se localizasse mais perto de sua casa, da sua família, dos seus amigos de infância, do seu meio social?
Falo por mim: acaso eu vivesse em Lisboa (o que não seria difícil, pois como está a situação económica de Portugal, só aí se localiza o tecido empresarial mais competitivo e apelativo, sempre em detrimento do restante território nacional) – repito: se vivesse em Lisboa, não hesitaria em colocar o/s meu/s filho/s no CM. Contudo, vivo no Porto...

11. Se alguém, porventura, tiver a ousadia de pretender criar tal instituição no Norte do País, saiba desde já que me coloco na linha da frente para realizar este meu sonho. Se acaso este repto não for bem recebido pela Instituição Militar e pelo próprio Estado, então que sejam os agentes da "sociedade civil" a levar por diante esta nobre tarefa. Ex-militares, ex-polícias, bombeiros, agentes da Protecção Civil, empresários e grupos empresariais, grupos de cidadãos, associações de pais, professores, autarquias e demais poder local, todos os cidadãos que queiram criar no Norte uma instituição de ensino particular, inspirada nos modelos acima mencionados, de educação e formação cívica, de inculcação dos verdadeiros e nobres valores de Portugal também aqui existentes. Segundo o Art.º 43.º da Constituição da República Portuguesa (Liberdade de aprender e ensinar) «É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas».

12. Para que não reste qualquer dúvida acerca das pretensões deste artigo: fui, com todo o orgulho, aluno do CM, mas apenas durante alguns anos. Sinto grande mágoa por não ter continuado o meu percurso de "Menino da Luz" até ao fim. A distância física e psicológica em relação aos meus pais provocou, então, os seus efeitos nefastos...
Assim sendo, e a todos os alunos e ex-alunos do CM que lerem este artigo de opinião, não vejam nele qualquer produto derivado de frustrações ou ressentimentos. Vejam, antes, uma tentativa de se aprender com os erros do passado e do presente, e de proporcionar a um maior número de jovens o acesso a uma educação e formação como a que tive, por um período de tempo, no CM. A todos vós, um ZACATRAZ!